Aplicativo para pessoas com dor de cabeça crônica

A Cefaléia crônica e uma doença incapacitante que atinge milhares de pessoas em todo mundo.
A Cefaléia crônica e uma doença incapacitante que atinge milhares de pessoas em todo mundo.

Um dos princípios modernos do tratamento de dores crônicas é que o paciente tenha uma participação ativa na terapia, de acordo com o neurologista Ariovaldo Alberto da Silva Jr., do Ambulatório de Cefaléias do Serviço de Neurologia do Hospital das Clínicas da UFMG. No caso das dores de cabeça crônicas, é fundamental que o paciente mantenha um diário para registrar a frequência com que as crises aparecem e quais foram os fatores desencadeantes.

Os médicos especializados no tratamento de cefaléias costumam pedir que o paciente leve consigo um diário de dor de cabeça, em que devem anotar diariamente essas informações. Diante da resistência dos pacientes em carregar esse caderno, um grupo de neurologistas de Belo Horizonte resolveu criar um aplicativo para celular que pudesse desempenhar essa função.

“O diário em papel tinha folhas enormes, e o paciente, quando melhorava, parava de usar. E às vezes essa é a hora em que a gente mais precisa das informações, para melhorar a evolução”, diz Silva Jr. “Percebemos que aquilo tinha um aspecto simbólico de o paciente ficar aprisionado no papel. Com o aplicativo não, é apenas mais um que está no celular, como vários outros para gerenciar seu cotidiano.”

O aplicativo, chamado simplesmente “Dor de Cabeça”, foi desenvolvido por um time de especialistas de instituições como a Santa Casa de Belo Horizonte e o Hospital das Clínicas da UFMG, do qual Silva Jr. faz parte. Ele apresentou o programa, que foi criado há cerca de um ano, em uma mesa redonda sobre novidades no tratamento de dor no Simpósio Brasileiro e Encontro Internacional sobre Dor (Simbidor), evento que teve início nesta quinta-feira (7) em São Paulo.

Ele observa que, quando a dor ocorre em uma frequência baixa, uma vez por mês, por exemplo, é fácil lembrar-se para comunicar ao médico. “Mas quando o paciente passa a abusar de analgésicos e ter dor frequente, quase diária”, segundo Silva Jr., é comum que ele perca o controle de quantas vezes é acometido pelas crises.

Médico recebe relatório
A ferramenta permite que o paciente anote os dias em que teve dor de cabeça, qual foi sua intensidade, se houve algum fator desencadeante – como período menstrual, estresse, falta de sono – se o paciente tomou algum medicamento, entre outros dados. O aplicativo faz um cruzamento de informações e cria relatórios sobre o histórico do paciente, que podem ser enviados em PDF para o médico.

“Se a pessoa tem dor de cabeça frequente, é importante começar a anotar. Vai facilitar muito quando for ao médico e, o mais importante, vai facilitar sua visão sobre sua própria saúde. Porque a dor vai se cronificando aos poucos e pode ser difícil perceber isso sem esses dados”, diz Silva Jr. O aplicativo está disponível gratuitamente na Apple App Store e também para celulares com sistema Android.

Aplicativo permite registra frequência e intensidade da dor, entre outras informações.
Aplicativo permite registra frequência e intensidade da dor, entre outras informações.

Por Mariana Lenharo  – Do G1, em São Paulo (10/11/2013)

 

 

Novas Perspectivas para o Tratamento da Artrite da ATM

Cirurgia de substituição articular poderá se tornar uma coisa do passado com nova teoria sobre a gênese da osteoartrite

Fonte: Medical News Today

         Cientistas do Johns Hopkins modificaram a forma de ver a osteoartrite (OA), de dentro para fora. Literalmente. Ao invés de enxergar a dolorosa doença degenerativa como um problema principalmente da cartilagem que amortece as articulações, eles têm, agora, evidências de que o osso abaixo da cartilagem também é uma peça chave e exacerba o dano. Em um experimento de prova de conceito, eles descobriram que, bloqueando a ação de uma proteína crítica para a regulação óssea em camundongos,  a progressão da doença é interrompida.

Degeneração Articular Provocada Pela Artrite
Degeneração Articular Provocada Pela Artrite

         A teoria predominante no desenvolvimento da OA converge na cartilagem articular, sugerindo que a pressão mecânica instável sobre as articulações leva a mais e mais danos à cartilagem, e a consequente dor para o paciente, até que a única opção de tratamento restante seja a substituição total do joelho, do quadril ou da ATM (articulação Temporomandibular). A nova teoria, publicada na revistaNature Medicine, sugere que o dano inicial à cartilagem gera, ao osso abaixo dela, um comportamento inadequada por meio de uma construção óssea excedente. O osso extra força a cartilagem acima e acelera seu declínio.

         “Se existe algo errado com a perna de sua cadeira e você tenta consertar substituindo a almofada, você ainda não resolveu o problema”, diz Xu Cao, Ph.D., diretor do Center for Musculoskeletal Research no Department of Orthopaedic Surgery no Johns Hopkins University School of Medicine. “Achamos que o problema da OA não é apenas a cartilagem ‘amortecedora’, mas os ossos abaixo dela,” ele acrescenta.

         As articulações são formadas na intersecção de dois ossos. Para evitar a trituração e o desgaste das extremidades dos ossos, eles são limitados por uma fina camada de cartilagem, que não só proporciona uma superfície lisa para a rotação articular, mas também absorve um pouco do peso e da tensão mecânica colocado sobre a articulação. A degeneração desta camada protetora provoca dor extrema, levando a mobilidade limitada.

         Cao diz que a degeneração é mais frequentemente iniciada pela instabilidade nas articulações de suporte da carga da ATM, do joelho e do quadril, causada por lesão ou tensão, assim, os atletas, pessoas com excesso de peso e para aquelas pessoas cujos músculos estão enfraquecidos pela idade, estão em maior risco de desenvolver OA. A prevalência da doença está aumentando rapidamente; atualmente afeta 27 milhões de americanos e pode dobrar até 2030. O único tratamento disponível é o gerenciamento da dor ou a substituição cirúrgica da articulação artrítica por uma prótese.

         Cao diz também que a falta de medicamentos eficazes ou um completo

Dor Provocada Pela Artrite da ATM
Dor Provocada Pela Artrite da ATM

entendimento das causas subjacentes ao processo que causa a OA levou o seu grupo a procurar uma causa subjacente diferente. “Começamos a pensar na cartilagem e no osso por baixo dela, chamado osso subcondral, funcionando como uma única unidade”, diz Cao. “Isso nos ajudou a idealizar as maneiras que o osso responde às alterações na cartilagem e exacerba o problema.”

         Utilizando camundongos com gota no LCA (ligamento cruzado anterior), que é conhecida por resultar na OA do joelho, os pesquisadores descobriram que, logo depois de uma semana após a lesão, os bolsões de osso subcondral haviam sido “mastigados” para longe por células chamadas osteoclastos. Este processo ativou, no osso, níveis elevados de uma proteína chamada TGF-beta1 que, por sua vez, recrutou células-tronco para o local, para que pudessem criar um novo osso para preencher as lacunas. Cao denominou estes bolsões de formação do osso novo de “ilhotas ósseas.”

         Mas os processos de construção e destruição óssea não estavam coordenados nos ossos dos camundongos, e a construção óssea prevaleceu, colocando mais pressão sobre a cápsula de cartilagem. É esta estranha formação óssea que Cao e seus colegas acreditam que esteja no coração da OA, como foi confirmado em uma simulação computadorizada do joelho humano.

         Com esta nova hipótese nas mãos, completa com uma suposta proteína, a equipe tentou diversos métodos para bloquear a atividade do TGF-beta1. Quando uma droga inibidora do TGF-beta1 foi administrada por via intravenosa, o osso subcondral melhorou significativamente, mas a cápsula da cartilagem se deteriorou ainda mais. No entanto, quando um diferente inibidor de TGF-beta 1, um anticorpo contra ele, foi injetado diretamente para dentro do osso subcondral, os efeitos positivos foram observados no osso, sem os efeitos negativos sobre a cartilagem. O mesmo resultado foi observado também quando o TGF-beta 1 foi geneticamente alterado somente nas células precursoras do osso.

Cirurgia Para Colocação de Prótese Total na ATM
Cirurgia Para Colocação de Prótese Total na ATM

         “Nossos resultados são realmente uma boa notícia potencial para os pacientes com OA”, diz Cao. “Nós já estamos trabalhando para desenvolver um ensaio clínico para testar a eficácia da aplicação local de anticorpos para TGF-beta1 em pacientes humanos, ainda nas fases iniciais da OA”. Se for bem sucedido, o tratamento não cirúrgico poderia fazer a OA, assim como a sua dor e a debilitação que causa, interromper o seu caminho, disse ele.

A SÍNDROME DA DOR MIOFASCIAL

            É definida como síndrome de dor regional caracterizada pela presença de pontos-gatilho em músculos esqueléticos e suas fáscias associadas e a zona de dor referida correspondente. A síndrome, uma causa comum de dor regional persistente, muitas vezes deixa de ser diagnosticada.

A dor miofascial esta presente em várias regiões do corpo
A dor miofascial esta presente em várias regiões do corpo

            Os músculos contendo pontos-gatilho geralmente são encontrados através do reconhecimento do padrão de dor referida. Padrões sindrômicos de dor miofascial têm sido identificados com o músculo envolvido – por exemplo, síndrome do piriforme, ou do supra-espinhoso.

            Há quatro padrões gerais de pontos-gatilho miofasciais:

     1. um ponto-gatilho único, com mínimo envolvimento simpático;

     2. blocos de pontos-gatilho num grupo de músculos com envolvimento segmentar (por exemplo, pontos-gatilho isolados nos músculos cervicais, ou em cadeia cervicobraquial);

     3. síndromes combinadas de tronco superior e inferior (por exemplo, pontos-gatilho ipsilaterais tanto nos grupos de músculos cervicais quanto lombares);

     4. pontos-gatilho difusos bilaterais, geralmente com envolvimento extenso do tecido muscular esquelético para-espinal hiperalgésico. Esse padrão geralmente se associa com dor neuropática.

A dor miofascial se caracteriza pela presença de pontos gatilhos miofascial.
A dor miofascial se caracteriza pela presença de pontos gatilhos miofascial.

Os pontos-gatilho miofasciais ou pontos de acupuntura, fisiologicamente em “estado latente”, tornam-se “ativos”, isto é, dolorosos à palpação, em condições patológicas, como conseqüência de trauma, ou perturbações internas do organismo – distúrbios viscerais (reflexos víscero-somáticos), neurohumorais (síndrome de fibromialgia, fadiga) ou estados febris, ou pela influência de fatores ambientais, ou por causa de distúrbios músculo-esqueléticos intrínsecos (síndromes dolorosas miofasciais).

DIAGNÓSTICO

            É feito a partir de dados: da história clínica, com ênfase aos aspectos

Pontos miofasciais podem provocar dor referida na região da face.
Pontos miofasciais podem provocar dor referida na região da face.

relacionados à patogenia e aos mecanismos da síndrome, é um aspecto fundamental. Em geral, o paciente não é consciente da existência de seus próprios pontos-gatilho, e a dor se manifesta em território distante do ponto. Por exemplo, a atividade de ponto gatilho do músculo elevador da escápula causa dor na face interna do braço, que se irradia para os dedos mínimo e anular. Essa região é chamada zona de dor referida.

            Recomenda-se a investigação de fatores mantenedores (mecânicos,

 disfuncionais, psicológicos, bioquímicos, metabólicos, endócrinos, ambientais e infecciosos), que podem comprometer o sucesso do tratamento.

TÓPICOS DO DIAGNÓSTICO:

  • Dor local, circunscrita à palpação;
  • Padrões específicos de dor referida;
  • Localização do ponto-gatilho fora da zona de dor referida;
  • Sinal do pulo / vocalização em resposta à palpação;
  • Reprodução do padrão de dor do paciente pela palpação ou agulhamento;
  • Contratura local em resposta à palpação ou ao agulhamento;
  • Banda tensa;
  • Os pontos-gatilho afetam a atividade simpática regional/segmentar;
  • A zona de dor referida se apresenta freqüentemente mais fria.

            O método mais confiável de localizar os pontos-gatilho é a procura nas áreas dolorosas com a ponta do dedo. A pressão aplicada na área hipersensível no músculo reproduz ou acentua a dor. O procedimento é em geral acompanhado por um recuo involuntário do paciente.

            A área hipersensível pode dar, à palpação, a sensação de corda esticada, enrijecida. Os músculos devem ser examinados tanto em relaxamento quanto sob esforço. Num halo de sensibilidade dolorosa, é preciso procurar pela área de maior sensibilidade ou resposta.

            Áreas suspeitas de conter pontos-gatilho devem ser comparadas com a

Pontos gatilhos difusos pelo corpo.
Pontos gatilhos difusos pelo corpo.

área contralateral correspondente, que no caso da dor crônica se apresenta dolorosa à palpação, mas em grau bem menor.

       Embora o padrão de dor referida possa ajudar a isolar a área hipersensível, note-se que o padrão difere de acordo com a gravidade e a duração da patologia dos pontos-gatilho, estrutura corporal, estado de saúde, gênero, e grau de trauma ou vulnerabilidade.

            Uma equipe multidisciplinar para avaliar a dor e a função e recomendar a terapia adequada é de grande valor no tratamento da dor crônica.

Hipermobilidade Articular

Uma das causas de dor articular, especialmente em jovens, é a síndrome da hipermobilidade articular. Isto acontece quando as articulações são mais móveis do que o normal e mais predispostas a lesões. Este tema é um pouco controverso, já que não é incomum pessoas normais possuírem articulações hipermóveis, especialmente meninas na pré-adolescência. Por isso, critérios restritivos foram criados para caracterizar a síndrome. Utiliza-se um sistema de pontuação, da seguinte maneira:

1. Ser capaz de encostar o polegar na parte de dentro do antebraço, ajudado pela outra mão (um ponto cada lado).
2. Ser capaz de puxar a mão para trás até o 5º dedo (mínimo) ficar paralelo com o antebraço(um ponto cada lado).
3. Esticar o cotovelo além da posição reta, mais de 10 graus (um ponto cada lado).
4. Esticar o joelho além da posição reta, mais de 5 graus (um ponto cada lado).
5. Ser capaz de tocar as palmas da mão no chão com as pernas esticadas (um ponto se conseguir)

Pacientes com pontuação maior do que 5 (de 9 possíveis) possuem a síndrome de hipermobilidade. E o que isto interessa para pacientes com fibromialgia? Alguns estudos mostram que a hipermobilidade pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de fibromialgia. Isto se deve provavelmente ao trauma crônico, sensibilizando o sistema nervoso central e levando à dor crônica. Obviamente, esta não é uma causa isolada da fibromialgia, mas a hipermobilidade deve ser avaliada em pacientes jovens com dores difusas.

A síndrome de hipermobilidade tende a melhorar com o tempo, dado ao envelhecimento natural de articulações e ligamentos. O tratamento baseia-se principalmente em atividades físicas aeróbicas e fortalecimentos musculares; apenas atividades de muito impacto devem ser evitadas. Em caso de persistência de dores, inchaço das articulações, fragilidade da pele ( o que pode indicar hiperelasticidade cutânea), um reumatologista deve ser procurado.

Eduardo S. Paiva
Reumatologista
Chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC-UFPR, Curitiba.

Fonte: www.fibromialgia.com.br

Tratamento da disfunção temporomandibular (DTM) e dor orofacial

Tratamento da disfunção temporomandibular (DTM) e dor orofacial

         É intrigante perceber como a informação flui na área da saúde. Em especial, é curioso notar que certos conceitos caducos, de assuntos esgotados, sofrem às vezes um refluxo e contaminam muitos clínicos. Essas ideias de tratamento provocam azias naqueles que acompanham a ciência e – mais grave ainda – prejudicam os que se submetem a tais tratamentos. Quanto menos letal uma condição é, mais suscetível está a essa impropriedade. Um artigo desse número oferece uma visão única sobre um dos temas mais acometidos pelo que descrevi: o tratamento da disfunção temporomandibular e outras dores orofaciais.

         Analise as seguintes perguntas sobre DTM. Seu tratamento é controverso? A Ortodontia faz parte dos métodos de tratamento? A tomografia da articulação deve ser a rotina na análise do problema? Os espaços articulares são relevantes para o diagnóstico, e é objetivo do tratamento ajustá-los? Se você respondeu sim para uma ou mais dessas perguntas, precisa ler o artigo de Carrara, Conti e Barbosa.

         A forte relação da dentição com a DTM foi estabelecida – erroneamente – há décadas. As conclusões equivocadas originaram-se da interpretação de resultados retrospectivos de estudos de séries de casos. Esse é o desenho de estudo mais frequentemente realizado por clínicos em seus consultórios, simplesmente porque o paciente vai a uma clínica para tratar algum tipo de problema. Desse modo, após alguns anos, todos coletamos material de uma série de casos sobre algum tema. Para entender como esse desenho de estudo é deficiente para apontar saídas para os problemas que enfrentamos, acompanhe a seguinte linha de raciocínio.

         Um profissional hipotético analisa os resultados de tratamento ortodôntico de 41 pacientes de seu consultório. Todos apresentaram queixas de dor e diagnóstico de DTM ao início do acompanhamento. Para simplificar o raciocínio, vamos considerar que temos dois possíveis resultados de tratamento: com melhora e sem melhora. Se o resultado final indicar que 35 pacientes melhoraram, o tratamento como um todo foi um sucesso, certo? A resposta correta é: errado. Não podemos concluir nada que não seja que esse tratamento talvez funcione.

         Algumas condições têm caráter cíclico ou transitório, e pode ser que os pacientes que melhoraram com essa terapia para DTM fossem melhorar de qualquer maneira. Portanto, um grupo controle deveria ser incluído, desde que se conclua de que seria eticamente aceitável deixar essas pessoas sem tratamento. Assim, se o grupo controle fosse incluído no estudo e apenas 20 pacientes melhorassem sem tratamento (Tab. 1), teríamos uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos Controle e Tratamento (p < 0,001), com o último grupo exibindo muito mais melhora do que o primeiro. Podemos, então, concluir que o tratamento proposto é eficaz? Não, pelo menos ainda não.

01t1

         Ao se refletir sobre o apresentado, é concebível imaginar que uma parcela de pessoas tratadas tenha uma melhora em suas queixas em decorrência do efeito placebo do tratamento. É quase impossível incluir um efeito placebo propriamente dito em uma terapia não-medicamentosa como a da DTM. Assim, falsos tratamentos podem ser implementados como, por exemplo, braquetes colados aos dentes sem um arco que desencadeie as forças, ou uma placa de acrílico que não cubra as superfícies oclusais dos dentes.

         Em nosso estudo hipotético, um grupo de Falso Tratamento foi avaliado. Os resultados mostraram que 33 pacientes melhoraram com o falso tratamento e não há diferença entre os grupos Tratamento e Falso Tratamento (p = 0,63). Assim, a nova terapia – ou velha, se for o refluxo de um conceito antigo – não é mais eficaz do que um falso tratamento.

         O croqui de ensaio clínico com três grupos descrito acima dá uma visão geral sobre o processo de construção da informação para tomada de decisão clínica. Entretanto, a simples criação dos três grupos ainda é uma ação incompleta e, por isso, insuficiente. Questões importantes relacionadas à aleatoriedade da assinalação dos pacientes para tratamento, à prospectividade do estudo, à análise de intenção de tratar, entre outros itens relevantes ao desenho de um ensaio clínico, sequer foram mencionadas. Até porque muitas páginas seriam consumidas para avançar sobre esses aspectos.

         Ao mesmo tempo, esse croqui retrata uma falha comum: muitos profissionais bem-intencionados utilizam especialmente congressos, mas também outros meios, para divulgar as conclusões tiradas das séries de casos tratados em seus consultórios, sem se dar conta da complexidade que existe por trás da formulação de estudos clínicos.

         Foi na tentativa de ajudar essas pessoas, que fazem parte das comunidades odontológica e médica, e também a população que sofre de DTM e dor orofacial, que Carrara, Conti e Barbosa escreveram o Termo do 1º Consenso em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial. Esse artigo tem características únicas porque reflete não apenas a opinião dos autores, mas também a dos principais profissionais da área no Brasil. Eles endossaram o artigo e demonstram que o tema não é controverso.

         Ademais, o artigo mostra que a evidência disponível permite concluir muitas coisas: a Ortodontia não faz parte dos métodos de tratamento corriqueiros do problema, a tomografia da articulação não deve ser utilizada como rotina, a análise do espaço articular não é relevante para o diagnóstico, não é objetivo do tratamento ajustar os espaços articulares, entre outras conclusões. O artigo é um marco na área e recomendo sua leitura na íntegra.

Jorge Faber 

Editor chefe

 

Dental Press Journal of Orthodontics

On-line version ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.15 no.3 Maringá June 2010

Eu tenho problemas na ATM (DTM – DOF)?

     Este é um assunto que precisa de uma avaliação de um profissional especialista, embora algumas perguntas podem nos orientar na suspeita de que algo está errado. Responda os itens abaixo e depois tire suas dúvidas com seu dentista especialista em DTM.

1 Sente dificuldade para abrir a boca?
Sim ( ) Não ( ) As vezes ( )

2 Você sente dificuldades para movimentar sua mandíbula para os lados?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

3 Tem cansaço ou dor muscular quando mastiga?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

4 Sente dores de cabeça com freqüência?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

5 Sente dor na nuca ou torcicolo?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

6 Tem dor de ouvido ou na região das articulações temporomandibulares (ATMs)?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

7 Já notou se tem ruídos na ATM quando mastiga ou quando abre a boca?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

8 Você já observou se tem algum hábito como apertar e/ou ranger os dentes, mascar chiclete, morder o lápis ou lábios, roer unhas?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

9 Sente que seus dentes não se articulam bem?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

10 Você se considera uma pessoa tensa ou nervosa?
Sim ( ) Não ( ) Às vezes ( )

Pontuação por resposta: Sim: 10 pontos; Às vezes: 5 pontos; Não: 0 pontos;
Índice anamnésico para classificar as categorias de severidade de DTM* (1992);
Categorias de severidade da DTM* Pontuações limite para classificar as categorias;

Sem DTM 0 – 15
DTM leve 20 – 40
DTM moderada 45 – 65
DTM severa 70 – 100

*DTM: Disfunção temporomandibular

Orientando o paciente

Conhecendo a placa de mordida

O que é a placa de mordida?

É um aparelho confeccionado em acrílico que é colocado sobre os dentes e que apresenta três funções principais: a primeira é a de proteger os dentes de se desgastarem em pacientes que apresentam parafunção, como o bruxismo (hábito de ranger dentes); a segunda é a de aliviar as articulações temporomandibulares (localizadas em frente aos ouvidos) contra as forças excessivas que se formam durante a parafunção; e a terceira é a de induzir o relaxamento da musculatura, o que ocorre em apenas alguns casos.

Qual é a sua indicação?

A placa de mordida tem várias indicações. A mais comum é para pacientes que apresentam bruxismo, com a finalidade de proteger os dentes do desgaste. Outra indicação importante é para pacientes que têm problemas nas articulações temporomandibulares e podem apresentar estalidos e travamento.

Como deve ser utilizada?

A utilização da placa depende do diagnóstico. Para os pacientes que rangem os dentes à noite, o seu uso deve ser predominantemente noturno.

Como deve ser a conservação da placa de mordida?

De manhã, a placa deve ser limpa com escova macia e sabonete ou pasta dental e mantida dentro de um recipiente apropriado, com algodão umedecido.

A placa resolve o problema da articulação temporomandibular?

Não. O ato de ranger e apertar os dentes pode ser controlado ou reduzido com o uso da placa de mordida, mas a resolução do problema ocorrerá com o passar do tempo, independentemente do uso da placa. Os problemas articulares poderão ser “acomodados” com a utilização da placa, pois são de auto-resolução e a placa será o agente responsável por reduzir os sintomas. Atualmente, considera-se a utilização da placa como um dos meios de controle dos problemas temporomandibulares. Outros meios de tratamento como fisioterapia, medicação e controle de estresse são também utilizados.

Quando deve ser substituída? 

Caso tenha sido confeccionada apropriadamente a mesma placa pode ser utilizada durante todo o tratamento (aproximadamente 6 meses). Porém, se o tratamento se prolongar por mais tempo, se a placa fraturar, ficar amarelada ou com deposição de tártaro, ela deverá ser substituída.

Quando a placa é indicada para dor de cabeça?

A dor de cabeça pode ter inúmeras causas distintas. Feito o diagnóstico e constatada que a dor é de origem muscular ou articular, a placa pode ser um coadjuvante no tratamento, sendo que, geralmente, há também necessidade de medicamento ou fisioterapia.

A placa deve ser mole ou dura?

Pode ser confeccionada em acrílico ou silicone. A placa de silicone é mais confortável, porém seus efeitos são menos controláveis e, por serem mais porosas, retêm mais bactérias e podem causar mau cheiro. Portanto, a placa de acrílico é a mais indicada na maioria dos casos.

Por quanto tempo a placa deve ser utilizada?

A maioria dos problemas de desordem temporomandibular e dor orofacial pode ser controlada em um período médio de 6 meses de uso noturno. Entretanto, em alguns pacientes, devido a fatores como bruxismo exagerado, depressão e estresse, a placa poderá ser utilizada por um período mais prolongado, sob controle periódico do dentista.

A placa de mordida necessita de manutenção?

Conforme a musculatura relaxa ou a placa se desgasta, a oclusão se modifica, devendo, então, ser ajustada periodicamente.

Fonte: Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas – Orientando o paciente